quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O uso da fotografia como discurso: o caso das festas populares religiosas na Ilha dos Marinheiros.
Carlos Leonardo Recuero, Lyl Rejane Recuero, Rebeca Recuero, José Antonio Recuero e Maira Recuero
As culturas populares expressam seus saberes através de manifestações repletas de significações e expressões muitas vezes indizíveis por palavras ou textos tradicionais. A memória e a tradição oral dos povos latino americanos, independente de suas vertentes étnicas e culturais possui uma vertente única. A origem de ameríndios e basicamente de portugueses e espanhóis, forjou uma religiosidade latina americana, fundamentada no cristianismo.
Entretanto, a diversidade que existe contraria aos ensinamentos cristãos que prevê à unidade aos seguidores de Cristo, gerou uma beleza única à cada evento popular religioso que ocorre na America Latina.
Este trabalho apresenta, mais do que uma narração tradicional um discurso visual, onde a fotografia é utilizada como o principal caderno de campo no estudo das manifestações religiosas e populares na Ilha dos Marinheiros.
A Ilha dos Marinheiros é a maior ilha da Laguna dos Patos. A Laguna dos Patos, erroneamente considerada como lagoa, fica localizada no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Com uma área de 39.280.854,60 m2 e tendo desta área 12.583.711,00m2 de lagoas, areais e dunas a Ilha dos Marinheiros está localizado no noroeste geográfico a 32O. De latitude sul e 52O.6`de longitude oeste e possui uma configuração que pode ser denominada de circular.
O nome originou-se pelas constantes idas à ilha por parte dos marinheiros da armada de Silva Paes, em busca de madeira e água potável para o abastecimento do forte, que em 1737 foi fundado a uma distância de 1,5 km através co canal da Lagoa dos Patos e que originou a cidade do Rio Grande.
A Ilha dos Marinheiros esta dividida em quatro regiões, denominadas por seus habitantes como Bandeirinhas, Porto do Rey, Marambaia e Fundos da Ilha. Tem hoje uma população estável de cerca de 1.500 pessoas, sendo a maioria composta por velhos e crianças. Os adultos e os jovens com maior capacidade de produção migram para o continente em busca de melhores oportunidades e em algumas vezes como uma forma de fuga da dura vida que os pescadores – lavradores da ilha levam.
A identidade do ilhéu é formada com base nos mecanismos de apropriação dos recursos do mar e na exploração de uma agricultura familiar rudimentar. As construções identitárias e sociais se elaboram a partir das dimensões imaginárias das representações culturais que foram forjadas no grupo por uma herança mítica e religiosa própria de habitantes insulares.
A íntima ligação do ilhéu com a natureza e os fenômenos naturais, próprio de culturas que fundamentam sua sociedade na retirada e captura de recursos naturais, forjou a fisionomia antropogeográfica do homem da ilha. Nesta formação muito contribuiu a herança religiosa portuguesa. O isolamento natural que determina as culturas insulares, o primitivismo social e sobretudo as relações que estabelece com o mundo do desconhecido, submetido às forças da natureza, dos ventos e das mares, é o que caracterizam no dizer de Marques o pescador-lavrador:
“(...) Temente a Deus e aos seus santos padroeiros”, “(...) mas deixou-o ainda supersticioso. Receia o sobrenatural; crê em mitos; usa “bentos”, talismãs. Utiliza-se de ‘rezas’ especiais para afastamento dos ‘mau spirito’ e do ‘mau olhadu’. Teme os ‘mau agoro’ e uma serie de coisas ‘qui não presta dizê ou fazê’; protege sua casa com ‘registo de santo’. (MARQUES, 1973:16)
A cultura insular ilhéu caracteriza-se por ter uma relação com o sagrado, com mitos e lendas que compõem o imaginário coletivo desta população. O mundo invisível dos espíritos só é passível de compreensão, através do diálogo entre a cultura, a memória e a devoção presente nos gestos, olhares e formas de comportamento presentes nas manifestações religiosas organizadas em homenagem aos santos padroeiros. É o agir e o fazer realizado como linguagem comportamental que irão estabelecer as relações com o mundo dos espíritos, rompidas pelo cotidiano da vida.
A manifestação religiosa de pessoas simples em busca da salvação divina e pelo paraíso, realizadas nas festas religiosas em pró do santo padroeiro, são uma contraposição ao agir realizado durante o tempo profano cotidiano exercido na existência terrena e exigem “negócios com o divino”, como o pedir, prometer e pagar.
Portanto, todas as maneiras de manifestação religiosa, como a retribuição das dádivas recebidas na troca ainda que mística de favores divinos, das promessas realizadas, de trocas de pedidos e orações e oferendas fazem da festa um acontecimento sagrado e “(...) santificado pelos deuses e suscetível de tornar-se presente pela festa”(ELIADE, 2001.:65) e exige do ilhéu devoto participar para agradar os deuses pois a troca entre o divino e o homem deve ser efetivada para estabelecer condutas sociais e comportamentos que deverão reger o grupo social até a próxima festa.
Por outro lado, existe como diz Mauss uma obrigação de dar e de receber, pois “(...) não implica só a obrigação de retribuir os presentes recebidos; ela supõe dois outros igualmente importante: a obrigação de os dar, por um lado, e a obrigação de os receber, por outro”(MAUSS.2001.67).
Assim, se percebe que a festa é repleta, não só de uma atmosfera religiosa de fé e devoção, mas é repleta de acontecimentos que visam reparar as pequenas e grandes transgressões realizadas para se obter uma re-inserção no mundo profano, de uma nova maneira e com um novo status como diz Van Gennep(1978).
Este acontecimento sócio – cultural é repleto de signos e significados. É neste momento religioso-social que o homem simples, submetido a natureza do tempo cíclico da vida e, distante da submissão sufocante da cidade grande e do modernismo globalizante, re- estabelece a ordem do grupo social.
As festa religiosas são ritos de passagem que servem também para aumentarem a coesão do grupo social, estreitarem laços familiares e reavivarem as relações de parentesco. Este processo, na Ilha dos Marinheiros, é ainda uma forma de definição de identidade étnica que define o grupo nativo e os outros.
A invenção da fotografia “(...) abriu à antropologia novas possibilidades de trabalho, como objetivar aspectos da realidade que antes não passavam de meras impressões (GURAN, in ACHUTTI, 1998: 88), uma vez que a natureza vai se substituindo a cada momento, mudando o anteriormente visto.
A expressão de Lévi-Strauss “mirar, escuchar, leer”(LEVI-STRAUSS, 1992:xx) deve ser entendida não só como uma análise de seu trabalho, “(...) mas como uma indicação de que o uso dos sentidos da visão e da audição devem ser preparados pelo antropólogo, para a sua utilização, não só pela percepção do real, que é amplamente visual e auditivo, mas como outra fonte de novas observações seguras sobre a cultura, tomadas com a utilização da ‘reprodutibilidade técnica do real’, e realizadas pelo aparato fotográfico”(RECUERO.2008.36) .
Assim a utilização da fotografia como ‘método de observação’ sugerida por Mauss em seu “Manual de Etnografia” (2006), a observação participante de Malinowski aventada no livro “Os Argonautas do Pacífico Ocidental” (1968) como forma de efetuar uma pesquisa de campo antropológica e etnográfica, são completados como método desta trabalho com as orientações de Collier Jr., e “A Utilização da Fotografia Como Método de Pesquisa”(1973), são os elementos chaves na elaboração deste trabalho com o uso da Fotografia como discurso: o caso das festa populares religiosas na Ilha dos Marinheiros.
A escolha da fotografia como fio condutor se fundamenta na bibliografia existente sobre antropologia visual, pois como diz Samain ao falar sobre o livro de Bateson e Mead “Balinese Character Photografic Analysis”, como fonte de pesquisa em ciências sociais “(...) concebidos como verdadeiras fontes de pesquisa e não apenas como meras ilustrações”(SAMAIN in ALVES, 2004: 53).
Finalmente sobre o uso da fotografia como método usa-se a premissa de que “(...) a fotografia implica, de nossa parte, um conhecimento e uma aceitação do mundo tal como a câmara o registra”(SONTAG, 1981:22).
Para a investigação sobre as festas religiosas na Ilha dos Marinheiros, se participou de todas as festas religiosas que ocorreram nos últimos três anos. Foram realizadas cerca de 9000 fotografias digitais e 2000 fotografias analógicas em preto e branco e a cores. As festas foram fotografadas desde a sua preparação, organização e a festa propriamente dita, com todos os ritos existentes.
Ao se dar a mesma importância da imagem fotográfica ao texto tradicional, não se abriu mão do tradicional caderno de campo e de entrevistas orais, alem da observação imerso na comunidade. Assim, durante os tres anos foi possível reunir uma infinidade de informações, sobre a tradição popular dos festejos, sobre a escolha dos santos padroeiros, sobre os ritos religiosos e sobre as manifestações individuais dos ilhéus.
Se o que a fotografia apresenta é provas da realidade, a ordenação das imagens fotográficas obtidas de forma a comporem um texto visual sobre as manifestações sociais como forma de recriarem as relações interrompidas com os santos padroeiros e conseqüentemente com o mundo dos espíritos.
As imagens apresentam o rito, a magia, a piedade e a fé destas relações com o sobrenatural, mostrando como o ilhéu através da linguagem do corpo e de suas variantes, estreita as relações com os espíritos do céu e os espíritos da terra e da água renovando com as divindades contratos que regem o modo de viver social e culturalmente naquela sociedade ilhéu.
Percebe-se ao final do trabalho que os Ilhéus fundamentam sua vida e suas relações sociais nos preceitos do cristianismo trazido pelos colonizadores, com forte características latinas e hispano-portuguesas. Que as exteriorizações dos aprendizados feitos através da visualização das práticas devocionais nos acontecimentos religiosos e festas, determinam na memória do grupo social nativo, as maneiras de agirem com vista as suas relações com o mundo sobrenatural
Que o uso da fotografia como método discursivo, neste caso, mostrou-se eficiente, pois a duplicação da realidade efetuada pelas imagens fotográficas foram mais persuasivas que a observação presencial, talvez devido a existência do movimento, que é perturbador para o ser humano.
A mediatização da fotografia com o uso do processo fotoetnográfico no estudo cientifico social é uma dessas novas tecnologias hipertextuais que o trabalho de campo deve incorporar, como forma de gerar uma compreensão maior e melhor dos seus objetos de estudo, reforçando o diálogo pendente entre a academia e o saber popular.
Bibliografia
ACHUTTI, Luiz Eduardo Robinson. (Org) Ensaios Sobre o Fotográfico. Unidade Editorial.Porto Alegre. 1998.
ALVES, André. Os Argonautas do Mangue. Editora Unicamp.Campinas. 2004.
COLLIER JR. John. Antropologia Visual: A Fotografia como Método de Pesquisa. Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo 1973.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. Editora Martins Fontes. São Paulo.2001.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. Um Relato do empreendimento e da Aventura dos Nativos nos Arquipelágos da Nova Guiné Ocidental. Coleção os Pensadores. Editora Abril.São Paulo. 1978.
MARQUES, Lilian Argentina B. O Pescador Artesanal do Sul. Mec. Funarte. Rio de Janeiro. 1980.
MAUSS, Marcel. Ensaio Sobre a Dádiva. Edições Lisboa. 2001.
RECUERO, Carlos Leonardo. Dissertação de Mestrado. A Ilha dos Marinheiros: um estudo fotoetnotextográfico do ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade. UFPel. 2008.
SONTAG, Susan. Ensaios Sobre a Fotografia. Editora Arbor. Rio de Janeiro. 1981.
VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Editora Vozes. Petropolis. 1978
As culturas populares expressam seus saberes através de manifestações repletas de significações e expressões muitas vezes indizíveis por palavras ou textos tradicionais. A memória e a tradição oral dos povos latino americanos, independente de suas vertentes étnicas e culturais possui uma vertente única. A origem de ameríndios e basicamente de portugueses e espanhóis, forjou uma religiosidade latina americana, fundamentada no cristianismo.
Entretanto, a diversidade que existe contraria aos ensinamentos cristãos que prevê à unidade aos seguidores de Cristo, gerou uma beleza única à cada evento popular religioso que ocorre na America Latina.
Este trabalho apresenta, mais do que uma narração tradicional um discurso visual, onde a fotografia é utilizada como o principal caderno de campo no estudo das manifestações religiosas e populares na Ilha dos Marinheiros.
A Ilha dos Marinheiros é a maior ilha da Laguna dos Patos. A Laguna dos Patos, erroneamente considerada como lagoa, fica localizada no estado brasileiro do Rio Grande do Sul. Com uma área de 39.280.854,60 m2 e tendo desta área 12.583.711,00m2 de lagoas, areais e dunas a Ilha dos Marinheiros está localizado no noroeste geográfico a 32O. De latitude sul e 52O.6`de longitude oeste e possui uma configuração que pode ser denominada de circular.
O nome originou-se pelas constantes idas à ilha por parte dos marinheiros da armada de Silva Paes, em busca de madeira e água potável para o abastecimento do forte, que em 1737 foi fundado a uma distância de 1,5 km através co canal da Lagoa dos Patos e que originou a cidade do Rio Grande.
A Ilha dos Marinheiros esta dividida em quatro regiões, denominadas por seus habitantes como Bandeirinhas, Porto do Rey, Marambaia e Fundos da Ilha. Tem hoje uma população estável de cerca de 1.500 pessoas, sendo a maioria composta por velhos e crianças. Os adultos e os jovens com maior capacidade de produção migram para o continente em busca de melhores oportunidades e em algumas vezes como uma forma de fuga da dura vida que os pescadores – lavradores da ilha levam.
A identidade do ilhéu é formada com base nos mecanismos de apropriação dos recursos do mar e na exploração de uma agricultura familiar rudimentar. As construções identitárias e sociais se elaboram a partir das dimensões imaginárias das representações culturais que foram forjadas no grupo por uma herança mítica e religiosa própria de habitantes insulares.
A íntima ligação do ilhéu com a natureza e os fenômenos naturais, próprio de culturas que fundamentam sua sociedade na retirada e captura de recursos naturais, forjou a fisionomia antropogeográfica do homem da ilha. Nesta formação muito contribuiu a herança religiosa portuguesa. O isolamento natural que determina as culturas insulares, o primitivismo social e sobretudo as relações que estabelece com o mundo do desconhecido, submetido às forças da natureza, dos ventos e das mares, é o que caracterizam no dizer de Marques o pescador-lavrador:
“(...) Temente a Deus e aos seus santos padroeiros”, “(...) mas deixou-o ainda supersticioso. Receia o sobrenatural; crê em mitos; usa “bentos”, talismãs. Utiliza-se de ‘rezas’ especiais para afastamento dos ‘mau spirito’ e do ‘mau olhadu’. Teme os ‘mau agoro’ e uma serie de coisas ‘qui não presta dizê ou fazê’; protege sua casa com ‘registo de santo’. (MARQUES, 1973:16)
A cultura insular ilhéu caracteriza-se por ter uma relação com o sagrado, com mitos e lendas que compõem o imaginário coletivo desta população. O mundo invisível dos espíritos só é passível de compreensão, através do diálogo entre a cultura, a memória e a devoção presente nos gestos, olhares e formas de comportamento presentes nas manifestações religiosas organizadas em homenagem aos santos padroeiros. É o agir e o fazer realizado como linguagem comportamental que irão estabelecer as relações com o mundo dos espíritos, rompidas pelo cotidiano da vida.
A manifestação religiosa de pessoas simples em busca da salvação divina e pelo paraíso, realizadas nas festas religiosas em pró do santo padroeiro, são uma contraposição ao agir realizado durante o tempo profano cotidiano exercido na existência terrena e exigem “negócios com o divino”, como o pedir, prometer e pagar.
Portanto, todas as maneiras de manifestação religiosa, como a retribuição das dádivas recebidas na troca ainda que mística de favores divinos, das promessas realizadas, de trocas de pedidos e orações e oferendas fazem da festa um acontecimento sagrado e “(...) santificado pelos deuses e suscetível de tornar-se presente pela festa”(ELIADE, 2001.:65) e exige do ilhéu devoto participar para agradar os deuses pois a troca entre o divino e o homem deve ser efetivada para estabelecer condutas sociais e comportamentos que deverão reger o grupo social até a próxima festa.
Por outro lado, existe como diz Mauss uma obrigação de dar e de receber, pois “(...) não implica só a obrigação de retribuir os presentes recebidos; ela supõe dois outros igualmente importante: a obrigação de os dar, por um lado, e a obrigação de os receber, por outro”(MAUSS.2001.67).
Assim, se percebe que a festa é repleta, não só de uma atmosfera religiosa de fé e devoção, mas é repleta de acontecimentos que visam reparar as pequenas e grandes transgressões realizadas para se obter uma re-inserção no mundo profano, de uma nova maneira e com um novo status como diz Van Gennep(1978).
Este acontecimento sócio – cultural é repleto de signos e significados. É neste momento religioso-social que o homem simples, submetido a natureza do tempo cíclico da vida e, distante da submissão sufocante da cidade grande e do modernismo globalizante, re- estabelece a ordem do grupo social.
As festa religiosas são ritos de passagem que servem também para aumentarem a coesão do grupo social, estreitarem laços familiares e reavivarem as relações de parentesco. Este processo, na Ilha dos Marinheiros, é ainda uma forma de definição de identidade étnica que define o grupo nativo e os outros.
A invenção da fotografia “(...) abriu à antropologia novas possibilidades de trabalho, como objetivar aspectos da realidade que antes não passavam de meras impressões (GURAN, in ACHUTTI, 1998: 88), uma vez que a natureza vai se substituindo a cada momento, mudando o anteriormente visto.
A expressão de Lévi-Strauss “mirar, escuchar, leer”(LEVI-STRAUSS, 1992:xx) deve ser entendida não só como uma análise de seu trabalho, “(...) mas como uma indicação de que o uso dos sentidos da visão e da audição devem ser preparados pelo antropólogo, para a sua utilização, não só pela percepção do real, que é amplamente visual e auditivo, mas como outra fonte de novas observações seguras sobre a cultura, tomadas com a utilização da ‘reprodutibilidade técnica do real’, e realizadas pelo aparato fotográfico”(RECUERO.2008.36) .
Assim a utilização da fotografia como ‘método de observação’ sugerida por Mauss em seu “Manual de Etnografia” (2006), a observação participante de Malinowski aventada no livro “Os Argonautas do Pacífico Ocidental” (1968) como forma de efetuar uma pesquisa de campo antropológica e etnográfica, são completados como método desta trabalho com as orientações de Collier Jr., e “A Utilização da Fotografia Como Método de Pesquisa”(1973), são os elementos chaves na elaboração deste trabalho com o uso da Fotografia como discurso: o caso das festa populares religiosas na Ilha dos Marinheiros.
A escolha da fotografia como fio condutor se fundamenta na bibliografia existente sobre antropologia visual, pois como diz Samain ao falar sobre o livro de Bateson e Mead “Balinese Character Photografic Analysis”, como fonte de pesquisa em ciências sociais “(...) concebidos como verdadeiras fontes de pesquisa e não apenas como meras ilustrações”(SAMAIN in ALVES, 2004: 53).
Finalmente sobre o uso da fotografia como método usa-se a premissa de que “(...) a fotografia implica, de nossa parte, um conhecimento e uma aceitação do mundo tal como a câmara o registra”(SONTAG, 1981:22).
Para a investigação sobre as festas religiosas na Ilha dos Marinheiros, se participou de todas as festas religiosas que ocorreram nos últimos três anos. Foram realizadas cerca de 9000 fotografias digitais e 2000 fotografias analógicas em preto e branco e a cores. As festas foram fotografadas desde a sua preparação, organização e a festa propriamente dita, com todos os ritos existentes.
Ao se dar a mesma importância da imagem fotográfica ao texto tradicional, não se abriu mão do tradicional caderno de campo e de entrevistas orais, alem da observação imerso na comunidade. Assim, durante os tres anos foi possível reunir uma infinidade de informações, sobre a tradição popular dos festejos, sobre a escolha dos santos padroeiros, sobre os ritos religiosos e sobre as manifestações individuais dos ilhéus.
Se o que a fotografia apresenta é provas da realidade, a ordenação das imagens fotográficas obtidas de forma a comporem um texto visual sobre as manifestações sociais como forma de recriarem as relações interrompidas com os santos padroeiros e conseqüentemente com o mundo dos espíritos.
As imagens apresentam o rito, a magia, a piedade e a fé destas relações com o sobrenatural, mostrando como o ilhéu através da linguagem do corpo e de suas variantes, estreita as relações com os espíritos do céu e os espíritos da terra e da água renovando com as divindades contratos que regem o modo de viver social e culturalmente naquela sociedade ilhéu.
Percebe-se ao final do trabalho que os Ilhéus fundamentam sua vida e suas relações sociais nos preceitos do cristianismo trazido pelos colonizadores, com forte características latinas e hispano-portuguesas. Que as exteriorizações dos aprendizados feitos através da visualização das práticas devocionais nos acontecimentos religiosos e festas, determinam na memória do grupo social nativo, as maneiras de agirem com vista as suas relações com o mundo sobrenatural
Que o uso da fotografia como método discursivo, neste caso, mostrou-se eficiente, pois a duplicação da realidade efetuada pelas imagens fotográficas foram mais persuasivas que a observação presencial, talvez devido a existência do movimento, que é perturbador para o ser humano.
A mediatização da fotografia com o uso do processo fotoetnográfico no estudo cientifico social é uma dessas novas tecnologias hipertextuais que o trabalho de campo deve incorporar, como forma de gerar uma compreensão maior e melhor dos seus objetos de estudo, reforçando o diálogo pendente entre a academia e o saber popular.
Bibliografia
ACHUTTI, Luiz Eduardo Robinson. (Org) Ensaios Sobre o Fotográfico. Unidade Editorial.Porto Alegre. 1998.
ALVES, André. Os Argonautas do Mangue. Editora Unicamp.Campinas. 2004.
COLLIER JR. John. Antropologia Visual: A Fotografia como Método de Pesquisa. Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo 1973.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. A Essência das Religiões. Editora Martins Fontes. São Paulo.2001.
MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. Um Relato do empreendimento e da Aventura dos Nativos nos Arquipelágos da Nova Guiné Ocidental. Coleção os Pensadores. Editora Abril.São Paulo. 1978.
MARQUES, Lilian Argentina B. O Pescador Artesanal do Sul. Mec. Funarte. Rio de Janeiro. 1980.
MAUSS, Marcel. Ensaio Sobre a Dádiva. Edições Lisboa. 2001.
RECUERO, Carlos Leonardo. Dissertação de Mestrado. A Ilha dos Marinheiros: um estudo fotoetnotextográfico do ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade. UFPel. 2008.
SONTAG, Susan. Ensaios Sobre a Fotografia. Editora Arbor. Rio de Janeiro. 1981.
VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Editora Vozes. Petropolis. 1978
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
De Etienne Samain, divulgo
O Antropólogo (E TODO ser humano) procura observar, conhecer e entender o “real”, esse campo vastíssimo da “realidade” humana. Um campo ou, melhor dizendo, um organismo em constante ação e interação, em constante trabalho de parto, de luto e de renascimento. Um gigantesco território vivo, recortado, no tempo e no espaço, por histórias, memórias, imaginários; atravessado por símbolos, sonhos e novos recomeços. Eis o que procuramos definir minimamente, quando falamos de “culturas” humanas. Delas, todavia, podemos entrever apenas o que oferecem à nossa observação e à nossa experimentação , isto é, representações do real. De tal modo que toda tentativa de compreensão dos fatos de cultura nunca será outra coisa senão representação de representações, isto é, no melhor dos casos, o esforço de uma nova contextualização, de uma nova enunciação e de uma inevitável interpretação destes mesmos fatos. Esforços que procuramos edificar, recorrendo a palavras, sons, gestos, imagens, gritos e, até, a silêncios. Pois não é inútil lembrar que, sem meios de comunicação, sem suportes comunicacionais, não existiriam as sociedades humanas, menos ainda as culturas, que os homens constroem através e com o auxílio desses suportes.
Etienne Samain. 2004.
Etienne Samain. 2004.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Falando sobre a Ilha e o Ilhéu
Esta comunidade intensamente ligada às águas, vive a dualidade terra-água em torno da qual se desenrola todos os aspectos sócio culturais e se cria uma identidade insular. O pescador artesanal que vive do mar, estabelece particularismos simbólicos, típicos de culturas marítimas, e totalmente diferentes dos chamados “continentais”.
A sobrevivência da captura da pesca, o coloca diante da lentidão do tempo cíclico da natureza, e esta relação aliada ao isolamento geográfico, o faz voltar o olhar para suas relações com os ventos, com as águas, com o tempo, com o oceano e adquire no imaginário inconsciente a necessidade da paz com sobrenatural, “(...) esse oceano era também a morada de monstros”(DIEGUES, 1998: 79) e vê na cruz o símbolo desta relação estabelecida com o divino, com o sagrado, de fato ela oportuniza uma ligação e simboliza a unificação dialética com o transcendental.
Assim, o significado da natureza como lugar dos deuses, e por serem os Deuses, como reza a crença e as lendas que “(...) são eles os verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo”(MAUSS, 2001: 61) direciona para o estabelecimento deste contrato, que permitiria a possibilidade de navegar no mar , de realizar a “travessia”. Este símbolo deve ser interpretado em toda a sua dimensão como um rito de passagem, pois de fato percebe-se pela história do próprio homem, seja pela mitologia grega ou através da “expedição dos argonautas”, ou mesmo a “Odisséia” e a lenda da “barca de Caronte”, que o homem trava uma relação mitológica profunda com as águas e com o mar.
A forte relação com o “mundo” das águas, aumenta o sentimento de pertencimento a um modo impar de vida. “(...) pescadores artesanais possuem o sentimento de pertencimento, implícito à realidade geográfica documentada no ímpar modo de vida”( LIMA, 2003128). São estas noções simbólicas que coexistem entre o tempo cíclico da vida terrena e o imaginário simbólico que remete a relação com o sobrenatural, explicitado na festa do santo padroeiro.
A afirmação de Gislaine Garcia de Faria de que “(...) o lugar não expressa vínculo de propriedade, mas sim uma rede de relações” (FARIA, 1998:79) remete ao sacro-religioso desta comunidade praieira, onde a dialética entre os mitos próprios da gente da lide com o mar, se reúnem na historicidade do lugar com a fé cristã herdada dos primeiros colonizadores portugueses que habitaram o lugar.
A comunidade da Marambaia possui características próprias. Embora, siga os mesmos ritos das outras duas comunidades existentes na ilha. A relação com o sagrado realizada tem uma forte conotação com as relações de trabalho e com a relação dos pescadores, e a sua mística com o mar e a natureza.
A sobrevivência da captura da pesca, o coloca diante da lentidão do tempo cíclico da natureza, e esta relação aliada ao isolamento geográfico, o faz voltar o olhar para suas relações com os ventos, com as águas, com o tempo, com o oceano e adquire no imaginário inconsciente a necessidade da paz com sobrenatural, “(...) esse oceano era também a morada de monstros”(DIEGUES, 1998: 79) e vê na cruz o símbolo desta relação estabelecida com o divino, com o sagrado, de fato ela oportuniza uma ligação e simboliza a unificação dialética com o transcendental.
Assim, o significado da natureza como lugar dos deuses, e por serem os Deuses, como reza a crença e as lendas que “(...) são eles os verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo”(MAUSS, 2001: 61) direciona para o estabelecimento deste contrato, que permitiria a possibilidade de navegar no mar , de realizar a “travessia”. Este símbolo deve ser interpretado em toda a sua dimensão como um rito de passagem, pois de fato percebe-se pela história do próprio homem, seja pela mitologia grega ou através da “expedição dos argonautas”, ou mesmo a “Odisséia” e a lenda da “barca de Caronte”, que o homem trava uma relação mitológica profunda com as águas e com o mar.
A forte relação com o “mundo” das águas, aumenta o sentimento de pertencimento a um modo impar de vida. “(...) pescadores artesanais possuem o sentimento de pertencimento, implícito à realidade geográfica documentada no ímpar modo de vida”( LIMA, 2003128). São estas noções simbólicas que coexistem entre o tempo cíclico da vida terrena e o imaginário simbólico que remete a relação com o sobrenatural, explicitado na festa do santo padroeiro.
A afirmação de Gislaine Garcia de Faria de que “(...) o lugar não expressa vínculo de propriedade, mas sim uma rede de relações” (FARIA, 1998:79) remete ao sacro-religioso desta comunidade praieira, onde a dialética entre os mitos próprios da gente da lide com o mar, se reúnem na historicidade do lugar com a fé cristã herdada dos primeiros colonizadores portugueses que habitaram o lugar.
A comunidade da Marambaia possui características próprias. Embora, siga os mesmos ritos das outras duas comunidades existentes na ilha. A relação com o sagrado realizada tem uma forte conotação com as relações de trabalho e com a relação dos pescadores, e a sua mística com o mar e a natureza.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Ilhéus
A Marambaia, é um espaço ocupado por pescadores artesanais. Ali, todos possuem um vínculo que engloba desde as relações de parentesco, as relações de trabalho em um único modo que rege a vida da comunidade. O ser pescador!
Homens afetos a vida do mar, a separação que este lhes impõe, formam e possuem uma identidade particular, que caracteriza o homem insular, que vivendo em um território geograficamente demarcado e limitado, estabelece uma cultura definida com práticas sociais e simbólicas desenvolvidas sempre em unicidade com sua relação com o mar.
Esta sociedade insular, como diz Diegues “(...) Dadas as incertezas, os imponderáveis climáticos e de mercado” (DIEGUES,1998: 59), estrutura-se baseada em um conhecimento empírico do mundo em que vivem, pois impedidos de influenciarem no tempos cíclico que rege as suas atividades, devem a ele se moldar.
Seus atores sociais, formulam um viver, que se por um lado se estrutura na tradição e no saber milenar da arte de viver em uma ilha, depender do mar e de suas conseqüências espaciais e geográficas, por outro estabelece um viver mágico-religioso.
Os habitantes em sua maioria pescadores que vivem a insegurança que marca a oposição do habitante insular ao continental, guardam arraigados em seu imaginário, o mítico e o sagrado, que rege as suas relações com o sobrenatural. Pescadores que vivem da “(...) apropriação material de recursos renováveis e móveis, coloca problemas relevantes na análise da relação entre o homem e a natureza” (DIEGUES,1983: 07), caracterizando uma estreita relação com o mundo da natureza.
Herdeiros naturais, das utopias sociais que envolvem as ilhas e seus habitantes, Os ilhéus, são os protagonistas da sua própria historicidade e transformaram estes ambientes considerados no passado, como impróprios para a vida humana, em seus espaços sociais, culturais e históricos, indo além do apelo imaginário e mágico, que as ilhas e seus habitantes despertam na psicologia do homem moderno.
Homens afetos a vida do mar, a separação que este lhes impõe, formam e possuem uma identidade particular, que caracteriza o homem insular, que vivendo em um território geograficamente demarcado e limitado, estabelece uma cultura definida com práticas sociais e simbólicas desenvolvidas sempre em unicidade com sua relação com o mar.
Esta sociedade insular, como diz Diegues “(...) Dadas as incertezas, os imponderáveis climáticos e de mercado” (DIEGUES,1998: 59), estrutura-se baseada em um conhecimento empírico do mundo em que vivem, pois impedidos de influenciarem no tempos cíclico que rege as suas atividades, devem a ele se moldar.
Seus atores sociais, formulam um viver, que se por um lado se estrutura na tradição e no saber milenar da arte de viver em uma ilha, depender do mar e de suas conseqüências espaciais e geográficas, por outro estabelece um viver mágico-religioso.
Os habitantes em sua maioria pescadores que vivem a insegurança que marca a oposição do habitante insular ao continental, guardam arraigados em seu imaginário, o mítico e o sagrado, que rege as suas relações com o sobrenatural. Pescadores que vivem da “(...) apropriação material de recursos renováveis e móveis, coloca problemas relevantes na análise da relação entre o homem e a natureza” (DIEGUES,1983: 07), caracterizando uma estreita relação com o mundo da natureza.
Herdeiros naturais, das utopias sociais que envolvem as ilhas e seus habitantes, Os ilhéus, são os protagonistas da sua própria historicidade e transformaram estes ambientes considerados no passado, como impróprios para a vida humana, em seus espaços sociais, culturais e históricos, indo além do apelo imaginário e mágico, que as ilhas e seus habitantes despertam na psicologia do homem moderno.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
sexta-feira, 11 de julho de 2008
A Origem Portuguesa
A Ilha dos Marinheiros: duas maneiras de contar.
Breve história e origem do nome
A história da Ilha dos Marinheiros, segundo Azevedo (2003: 36), diz que inicialmente, antes da vinda dos primeiros colonizadores, a Ilha era ocupada por indígenas, identificados por Ruivo (1994) como integrantes da tribo dos Minuanos, povo nômade que nela pescavam, caçavam e cultivavam alimentos para sua sobrevivência, quando ali se instalavam no verão.
Em 1737, o português Silva Paes desembarcou em Rio Grande para formar um núcleo de fortificação e de auxílio à Colônia de Sacramento. As constantes batalhas com os espanhóis obrigaram a Coroa Portuguesa a construir um fortim e povoar as terras próximas a barra do canal, lugar considerado estratégico para a consolidação dos domínios de Portugal. Segundo Maciel em seu trabalho “A Educação Ambiental como instrumento na busca de soluções para os problemas socioambientais na Ilha dos Marinheiros” (1998). “As fortificações, casas, quartéis e demais obras eram feitas de madeira, pau-a-pique e barro” (QUEIROZ, 1987:67).
Estes soldados deveriam construir uma vila e uma fortificação, sobre as dunas de areia, que caracterizavam a região e que geravam imensas dificuldades. Pela localização e a estrutura costeira, os marinheiros foram encarregados então de conseguir água para o consumo e madeira para essas fortificações, e foram buscá-las na Ilha próxima, onde eram abundantes e de boa qualidade. Segundo Décio Neves “a península do Rio Grande era circundada por inúmeros capões de mato, compostos, sobretudo, por muito boas madeiras, inclusive a grande Ilha dos Marinheiros” (NEVES, 1981:65).
O povoamento da ilha se processou baseado no interesse das vantagens que a Ilha dos Marinheiros oferecia para a atividade agrícola e pesqueira, e que eram até então exploradas, somente pelos nativos indígenas. Transformada inicialmente em três sesmarias doadas a primeira ao Capitão Antonio Gonçalves dos Anjos, a segunda a Antonio de Araújo Vilella e a terceira a Antonio Gonçalves Pereira de Faria (NEVES, 1981:72). Foi reconhecida inicialmente como “A Ilha dos Três Antônios” (FREIRE, 2003:19), e que a historiadora Azevedo (2003) também retifica no livro que conta a história da Ilha dos Marinheiros, ao chamar o livro de “A Ilha dos Três Antônios” (2003).
Segundo os registros de João Borges Fortes, uma nova doação de terras da ilha foi feita em 1744, “(...) a Marçal da Silva Veiga, o que deve indicar que efetivamente não ocorreu a ocupação dessas terras por parte dos sesmeiros anteriores” (RUIVO, 1994:151).
Sobre a origem do nome da ilha, Ruivo, ao citar Freitas (1980), acrescenta um dado importante referente a importância da Ilha na época da fundação da povoação no continente, e a origem do nome que davam a ilha, referindo-se ao ano de 1780 e ao relatório feito a Coroa por Sebastião Bettamio, o qual escrevia a respeito da Vila de São Pedro, atual cidade do Rio Grande, dizendo:
Defronte da vila em distância por mar de uma légua, está uma ilha chamada dos Marinheiros, na qual tem sesmarias e datas de terras de alguns particulares, e como dali vem as lenhas para a vila pelas não haver – mais próximas, forma isentas da sesmaria e datas, assim as lenhas como os capins que servem para coberta de casas, a fim de que tanto a Fazenda Real como os moradores da vila se poder em livremente utilizar das ditas lenhas e capins. (FREITAS, 1980:159).
Portanto, as constantes idas à ilha, por parte dos marinheiros, levaram que a população residente em Rio Grande de São Pedro a batizassem de Ilha dos Marinheiros. “O nome da Ilha dos Marinheiros originou-se pelas constantes idas dos marinheiros da armada de Silva Paes ao local para buscar água potável e lenha” (PIMENTEL, 1944: xx).
Saint-Hilaire diz em 1820 em sua passagem por Rio Grande “(...) grande parte da Ilha dos Marinheiros era coberta de mato e que lá se buscava a lenha necessária, mas era reservado ao consumo do hospital, ao corpo da guarda e aos pobres, a quem se permitia ir ali corta-la” (SAINT-HILAIRE, 1987: 66).
É importante ressaltar, que a ilha além de fornecer madeira para a construção do fortim no continente, era também o centro fornecedor de água potável para a vila de Rio Grande de São Pedro, sendo no entanto considerada como um local inóspito para se viver, apesar da fertilidade do solo. Os registro de Saint-Hilaire dizem, quando de sua visita ao sul em 1820 “(...) Ali se encontra uma excelente água cuja qualidade poude julgar, pois era a que se bebia à meza do Major Matheus” (SAINT-HILAIRE, 1987:66).
Ao se consultar os arquivos históricos do Rio Grande do Sul (1977), se percebe que a ilha também teve outro papel, pois segundo Ruivo, o arquivo histórico do Rio Grande do Sul, em seus anais (1997: 159) diz que “A ilha foi utilizada como presídio [...], o negro do sargento mor causa da última desordem, seja remetido para a Ilha dos Marinheiros por tempo de três meses” (RUIVO, 1994: 151), quando se refere a Revolta dos Dragões, ocorrida em 1742.
Os anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, apresentam à página 177 e 178 o seguinte relato sobre a Ilha, compilados por Ruivo;
(...) soldado dragão da Companhia do Tenente-coronel, que ele suplicante se acha preso neste Corpo da Guarda à ordem de V.Sa., por se retirar do pesado serviço que estava ocupando na ilha do Marinheiro para esta povoação, por entender se ajustava com o amplo patrocínio de V. As., pois naquela ilha vivia bastante amofinado do trabalho dela, alem de ser mui despido e de todo carecido de quanto se faz preciso a um soldado para poder continuar em sua obrigação e não menos em tão agro serviço (ARQUIVO HISTÓRICO DO RS, 1977:177/178; RUIVO, 1994:151).
Esta imagem de lugar inóspito para se viver, e distante dos lugares civilizados e habitados, de difícil acesso e abandonado é o retrato do que era a Ilha dos Marinheiros no passado, o que, mesmo assim, não impediu que aos poucos, ali se fosse fixando uma população de colonizadores, devido a “(...) suas fertilíssimas terras, propícias à agricultura” (MACIEL, 1998:41), e que foram atraindo uma população de “(...) imigrantes portugueses e africanos que, familiarizados com as atividades agrícolas, foram lá se estabelecendo” (MACIEL, 1998:41).
De fato Dreys passou por ali em 1817 e relata “(...) algumas chácaras e produzem com abundância todas as hortaliças e legumes que lhes pedem” (DREYS, 1961:75).
A ilha foi ocupada por portugueses oriundos de Águeda, Aveiro e da Bairrada, (AZEVEDO, 2003:11) e que ali desenvolveram uma variada gama de plantações de hortaliças, legumes, frutas e videiras, constituindo uma ocupação estável de lavradores e o povoamento da ilha. “Dentro deste lagamar acha-se uma grande ilha, chamada dos Marinheiros, muito fértil. Nela se encontram todos os auxílios necessários para se poder fazer naquele continente uma bem regulada povoação” (GUILHERMINO, 1981:1970).
Este processo de colonização e ocupação geográfica fez com que a ilha dos Marinheiros viesse a se tornar no dizer de Pimentel (1944) “(...) o mais importante centro agrícola do município, com intensa cultura de legumes e frutas, fabrico de vinhos, de que se abastece a cidade e faz exportação em larga escala”. “(...) é a parte mais fértil do município, sendo conhecida como o pomar do Rio Grande” (PIMENTEL, 1944:54), o que evidencia o desenvolvimento da ilha para a época e apontava para uma existência de uma população de moradores e trabalhadores expressivas na agricultura, quase todos de origem portuguesa.
Breve história e origem do nome
A história da Ilha dos Marinheiros, segundo Azevedo (2003: 36), diz que inicialmente, antes da vinda dos primeiros colonizadores, a Ilha era ocupada por indígenas, identificados por Ruivo (1994) como integrantes da tribo dos Minuanos, povo nômade que nela pescavam, caçavam e cultivavam alimentos para sua sobrevivência, quando ali se instalavam no verão.
Em 1737, o português Silva Paes desembarcou em Rio Grande para formar um núcleo de fortificação e de auxílio à Colônia de Sacramento. As constantes batalhas com os espanhóis obrigaram a Coroa Portuguesa a construir um fortim e povoar as terras próximas a barra do canal, lugar considerado estratégico para a consolidação dos domínios de Portugal. Segundo Maciel em seu trabalho “A Educação Ambiental como instrumento na busca de soluções para os problemas socioambientais na Ilha dos Marinheiros” (1998). “As fortificações, casas, quartéis e demais obras eram feitas de madeira, pau-a-pique e barro” (QUEIROZ, 1987:67).
Estes soldados deveriam construir uma vila e uma fortificação, sobre as dunas de areia, que caracterizavam a região e que geravam imensas dificuldades. Pela localização e a estrutura costeira, os marinheiros foram encarregados então de conseguir água para o consumo e madeira para essas fortificações, e foram buscá-las na Ilha próxima, onde eram abundantes e de boa qualidade. Segundo Décio Neves “a península do Rio Grande era circundada por inúmeros capões de mato, compostos, sobretudo, por muito boas madeiras, inclusive a grande Ilha dos Marinheiros” (NEVES, 1981:65).
O povoamento da ilha se processou baseado no interesse das vantagens que a Ilha dos Marinheiros oferecia para a atividade agrícola e pesqueira, e que eram até então exploradas, somente pelos nativos indígenas. Transformada inicialmente em três sesmarias doadas a primeira ao Capitão Antonio Gonçalves dos Anjos, a segunda a Antonio de Araújo Vilella e a terceira a Antonio Gonçalves Pereira de Faria (NEVES, 1981:72). Foi reconhecida inicialmente como “A Ilha dos Três Antônios” (FREIRE, 2003:19), e que a historiadora Azevedo (2003) também retifica no livro que conta a história da Ilha dos Marinheiros, ao chamar o livro de “A Ilha dos Três Antônios” (2003).
Segundo os registros de João Borges Fortes, uma nova doação de terras da ilha foi feita em 1744, “(...) a Marçal da Silva Veiga, o que deve indicar que efetivamente não ocorreu a ocupação dessas terras por parte dos sesmeiros anteriores” (RUIVO, 1994:151).
Sobre a origem do nome da ilha, Ruivo, ao citar Freitas (1980), acrescenta um dado importante referente a importância da Ilha na época da fundação da povoação no continente, e a origem do nome que davam a ilha, referindo-se ao ano de 1780 e ao relatório feito a Coroa por Sebastião Bettamio, o qual escrevia a respeito da Vila de São Pedro, atual cidade do Rio Grande, dizendo:
Defronte da vila em distância por mar de uma légua, está uma ilha chamada dos Marinheiros, na qual tem sesmarias e datas de terras de alguns particulares, e como dali vem as lenhas para a vila pelas não haver – mais próximas, forma isentas da sesmaria e datas, assim as lenhas como os capins que servem para coberta de casas, a fim de que tanto a Fazenda Real como os moradores da vila se poder em livremente utilizar das ditas lenhas e capins. (FREITAS, 1980:159).
Portanto, as constantes idas à ilha, por parte dos marinheiros, levaram que a população residente em Rio Grande de São Pedro a batizassem de Ilha dos Marinheiros. “O nome da Ilha dos Marinheiros originou-se pelas constantes idas dos marinheiros da armada de Silva Paes ao local para buscar água potável e lenha” (PIMENTEL, 1944: xx).
Saint-Hilaire diz em 1820 em sua passagem por Rio Grande “(...) grande parte da Ilha dos Marinheiros era coberta de mato e que lá se buscava a lenha necessária, mas era reservado ao consumo do hospital, ao corpo da guarda e aos pobres, a quem se permitia ir ali corta-la” (SAINT-HILAIRE, 1987: 66).
É importante ressaltar, que a ilha além de fornecer madeira para a construção do fortim no continente, era também o centro fornecedor de água potável para a vila de Rio Grande de São Pedro, sendo no entanto considerada como um local inóspito para se viver, apesar da fertilidade do solo. Os registro de Saint-Hilaire dizem, quando de sua visita ao sul em 1820 “(...) Ali se encontra uma excelente água cuja qualidade poude julgar, pois era a que se bebia à meza do Major Matheus” (SAINT-HILAIRE, 1987:66).
Ao se consultar os arquivos históricos do Rio Grande do Sul (1977), se percebe que a ilha também teve outro papel, pois segundo Ruivo, o arquivo histórico do Rio Grande do Sul, em seus anais (1997: 159) diz que “A ilha foi utilizada como presídio [...], o negro do sargento mor causa da última desordem, seja remetido para a Ilha dos Marinheiros por tempo de três meses” (RUIVO, 1994: 151), quando se refere a Revolta dos Dragões, ocorrida em 1742.
Os anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, apresentam à página 177 e 178 o seguinte relato sobre a Ilha, compilados por Ruivo;
(...) soldado dragão da Companhia do Tenente-coronel, que ele suplicante se acha preso neste Corpo da Guarda à ordem de V.Sa., por se retirar do pesado serviço que estava ocupando na ilha do Marinheiro para esta povoação, por entender se ajustava com o amplo patrocínio de V. As., pois naquela ilha vivia bastante amofinado do trabalho dela, alem de ser mui despido e de todo carecido de quanto se faz preciso a um soldado para poder continuar em sua obrigação e não menos em tão agro serviço (ARQUIVO HISTÓRICO DO RS, 1977:177/178; RUIVO, 1994:151).
Esta imagem de lugar inóspito para se viver, e distante dos lugares civilizados e habitados, de difícil acesso e abandonado é o retrato do que era a Ilha dos Marinheiros no passado, o que, mesmo assim, não impediu que aos poucos, ali se fosse fixando uma população de colonizadores, devido a “(...) suas fertilíssimas terras, propícias à agricultura” (MACIEL, 1998:41), e que foram atraindo uma população de “(...) imigrantes portugueses e africanos que, familiarizados com as atividades agrícolas, foram lá se estabelecendo” (MACIEL, 1998:41).
De fato Dreys passou por ali em 1817 e relata “(...) algumas chácaras e produzem com abundância todas as hortaliças e legumes que lhes pedem” (DREYS, 1961:75).
A ilha foi ocupada por portugueses oriundos de Águeda, Aveiro e da Bairrada, (AZEVEDO, 2003:11) e que ali desenvolveram uma variada gama de plantações de hortaliças, legumes, frutas e videiras, constituindo uma ocupação estável de lavradores e o povoamento da ilha. “Dentro deste lagamar acha-se uma grande ilha, chamada dos Marinheiros, muito fértil. Nela se encontram todos os auxílios necessários para se poder fazer naquele continente uma bem regulada povoação” (GUILHERMINO, 1981:1970).
Este processo de colonização e ocupação geográfica fez com que a ilha dos Marinheiros viesse a se tornar no dizer de Pimentel (1944) “(...) o mais importante centro agrícola do município, com intensa cultura de legumes e frutas, fabrico de vinhos, de que se abastece a cidade e faz exportação em larga escala”. “(...) é a parte mais fértil do município, sendo conhecida como o pomar do Rio Grande” (PIMENTEL, 1944:54), o que evidencia o desenvolvimento da ilha para a época e apontava para uma existência de uma população de moradores e trabalhadores expressivas na agricultura, quase todos de origem portuguesa.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Considerações
Quando se visita a Ilha dos Marinheiros pela primeira vez, fica-se impressionado com a mágica do lugar. Talvez, o olhar ao se debruçar sobre o verde, os ouvidos ao escutarem o borbulhar do mar e o olfato ao perceber aquele cheirinho puro de ar e liberdade, tornem a ilha, parte de um sonho que se teve quando criança. Depois a fantástica acolhida que se recebe dos ilhéus, e o poder partilhar de sua história, seus sonhos, seus anseios e desejos, mostram que a vida é mais do que relógios a ditarem o andar das pernas e o fazer das coisas.
A vida que se percebe ali, é de uma existência fundamentada na exteriorização dos aprendizados feitos através da experiência e do próprio tempo, os quais, datam da época em que os mitos estavam a serem criados e as lendas eram apenas histórias dos acontecimentos ocorridos no dia anterior. Ali se descobre que cada homem antigo é uma enciclopédia sobre a própria cultura e a sua sociedade.
Percebe-se nesse trabalho de dissertação, que a religiosidade, e a fé no sobrenatural, é que ditam a ordem social naquela sociedade. Verifica-se que o indíviduo se adapta ao tempo dos ventos e das marés e faz com que a sociedade insular, embora, corrompida pelo cotidiano da modernidade, busque re-encontrar no tempo mítico, o sagrado e os valores da própria existência.
É, pois, destes encontros e re-encontros, que o homem da Ilha dos Marinheiros re-estabelece a harmonia com o sobrenatural, e prepara-se para se confrontar com o profano, até a próxima festa, fazendo com que o fato social, ainda que individual, seja a expressão cultural que exprime a geografia social do ilhéu.
Partilhar desta experiência do “marinhense” é uma dádiva, foi uma dádiva, e a obrigação de se retribuir, se faz neste trabalho. Com as imagens fotográficas foi possível, como diz Marc Augé, pela curiosidade do etnológo “devolver(em) àqueles os quais investiga o gosto pelas origens”(AUGÉ.2007.44).
Por outro lado, o papel da fotografia, imagem estática, e utilizada como escritura narrativa, leva o observador a chegar a uma compreensão maior e mais verdadeira dos valores sociais, culturais e rituais dos marinhenses, permitindo um maior conhecimento antropológico e etnográfico desta população, sem ter que ir até o lugar, mas pela observação das fotografias.
É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.
São visões estas que na observação presencial, muitas vezes são ineficazes, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.
A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com o uso da fotoetnografia, leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.
Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.
Existem ainda duas considerações a serem feitas e ambas se referem à utilização da fotografia na antropologia visual e ao seu uso neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade na Ilha dos Marinheiros.
A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas do seu viver e puderam aprender sobre si mesmos, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois as pessoas se vêem demais.
Percebe-se, finalmente, que este trabalho re-afirma o que já se sabia. Se aprende com o olhar, com as imagens e não se pode tentar, então, explicá-lo somente com palavras, sem a mágica do visual, sem a “áurea”que Walter Benjamim dizia que a fotografia tinha.
É na unidade que está o desfecho para a maioria, senão a totalidade das soluções das dificuldades para se apresentar o “outro”, para se compreender o outro. A imagem fotográfica é uma destas ferramentas, pois ainda apresenta a verosimilhança com a realidade, e é, em muitas vezes, esclarecedora para a compreensão dos fenômenos sociais que se observa.
A interdisciplinariedade dos conhecimentos não pode ser submetida a uma única forma de expressão e descrição. Que caiam barreiras, que se abram os olhos e que a superficie branca de uma folha, ainda imaculada pela ausência de “registros”, absorva tanto palavras como imagens, com a mesma importância científica, na área das ciências sociais.
A vida que se percebe ali, é de uma existência fundamentada na exteriorização dos aprendizados feitos através da experiência e do próprio tempo, os quais, datam da época em que os mitos estavam a serem criados e as lendas eram apenas histórias dos acontecimentos ocorridos no dia anterior. Ali se descobre que cada homem antigo é uma enciclopédia sobre a própria cultura e a sua sociedade.
Percebe-se nesse trabalho de dissertação, que a religiosidade, e a fé no sobrenatural, é que ditam a ordem social naquela sociedade. Verifica-se que o indíviduo se adapta ao tempo dos ventos e das marés e faz com que a sociedade insular, embora, corrompida pelo cotidiano da modernidade, busque re-encontrar no tempo mítico, o sagrado e os valores da própria existência.
É, pois, destes encontros e re-encontros, que o homem da Ilha dos Marinheiros re-estabelece a harmonia com o sobrenatural, e prepara-se para se confrontar com o profano, até a próxima festa, fazendo com que o fato social, ainda que individual, seja a expressão cultural que exprime a geografia social do ilhéu.
Partilhar desta experiência do “marinhense” é uma dádiva, foi uma dádiva, e a obrigação de se retribuir, se faz neste trabalho. Com as imagens fotográficas foi possível, como diz Marc Augé, pela curiosidade do etnológo “devolver(em) àqueles os quais investiga o gosto pelas origens”(AUGÉ.2007.44).
Por outro lado, o papel da fotografia, imagem estática, e utilizada como escritura narrativa, leva o observador a chegar a uma compreensão maior e mais verdadeira dos valores sociais, culturais e rituais dos marinhenses, permitindo um maior conhecimento antropológico e etnográfico desta população, sem ter que ir até o lugar, mas pela observação das fotografias.
É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.
São visões estas que na observação presencial, muitas vezes são ineficazes, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.
A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com o uso da fotoetnografia, leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.
Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.
Existem ainda duas considerações a serem feitas e ambas se referem à utilização da fotografia na antropologia visual e ao seu uso neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade na Ilha dos Marinheiros.
A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas do seu viver e puderam aprender sobre si mesmos, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois as pessoas se vêem demais.
Percebe-se, finalmente, que este trabalho re-afirma o que já se sabia. Se aprende com o olhar, com as imagens e não se pode tentar, então, explicá-lo somente com palavras, sem a mágica do visual, sem a “áurea”que Walter Benjamim dizia que a fotografia tinha.
É na unidade que está o desfecho para a maioria, senão a totalidade das soluções das dificuldades para se apresentar o “outro”, para se compreender o outro. A imagem fotográfica é uma destas ferramentas, pois ainda apresenta a verosimilhança com a realidade, e é, em muitas vezes, esclarecedora para a compreensão dos fenômenos sociais que se observa.
A interdisciplinariedade dos conhecimentos não pode ser submetida a uma única forma de expressão e descrição. Que caiam barreiras, que se abram os olhos e que a superficie branca de uma folha, ainda imaculada pela ausência de “registros”, absorva tanto palavras como imagens, com a mesma importância científica, na área das ciências sociais.
terça-feira, 24 de junho de 2008
segunda-feira, 23 de junho de 2008
domingo, 22 de junho de 2008
Falando de Fotoetnografia...
Por outro lado, o papel da fotografia, imagem estática, e utilizada como escritura narrativa, leva o observador a chegar a uma compreensão maior e mais verdadeira dos valores sociais, culturais e rituais desta população, permitindo um maior conhecimento antropológico e etnográfico desta população, sem ter que ir até o lugar, mas pela observação das fotografias.
É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.
São visões estas que na observação presencial, muitas vezes é ineficaz, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.
A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com a fotoetnografia leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico, vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.
Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.
Existem ainda duas considerações, a serem feitas e ambas se referem a utilização da fotografia na antropologia visual, e o seu uso, neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade, na Ilha dos Marinheiros.
A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas e puderam aprender sobre si mesmo, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois se vê demais.
É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.
São visões estas que na observação presencial, muitas vezes é ineficaz, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.
A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com a fotoetnografia leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico, vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.
Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.
Existem ainda duas considerações, a serem feitas e ambas se referem a utilização da fotografia na antropologia visual, e o seu uso, neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade, na Ilha dos Marinheiros.
A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas e puderam aprender sobre si mesmo, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois se vê demais.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Fotoetnografando....
O registro fotográfico é a reunião da subjetividade do fotógrafo, acrescida de fatores intelectuais, emotivos, fundamentados em um tratamento expressivo que ele da sobre o significado de ver e registrar a realidade que representa na imagem fotográfica. Este procedimento caracteriza o principal elemento constitutivo da narração visual, a fotografia que intensifica o ato de olhar, gravando a observação do fenômeno, que posteriormente poderá acrescentar a esta imagem muda complementos verbais, se achar que é necessário explicar e interpretar o que a imagem contém.
Porém o elemento constitutivo do trabalho investigativo cientifico, na área das ciências sociais não é fruto apenas uma mera interpretação do visível, assim como a imagem fotográfica não é uma ilustração alegórica da investigação. O trabalho cientifico etnográfico no dizer de Marcel Mauss(2002), adverte para que “(...)tiene como fin la observación de las sociedades; como objetivo, el conocimiento de los hechos sociales. Registra esos hechos, por necesidad establece sus estadísticas y publica documentos que brindan el máximo de certeza”. (MAUSS.2002.21).
Porém o elemento constitutivo do trabalho investigativo cientifico, na área das ciências sociais não é fruto apenas uma mera interpretação do visível, assim como a imagem fotográfica não é uma ilustração alegórica da investigação. O trabalho cientifico etnográfico no dizer de Marcel Mauss(2002), adverte para que “(...)tiene como fin la observación de las sociedades; como objetivo, el conocimiento de los hechos sociales. Registra esos hechos, por necesidad establece sus estadísticas y publica documentos que brindan el máximo de certeza”. (MAUSS.2002.21).
domingo, 18 de maio de 2008
domingo, 11 de maio de 2008
O tempo cíclico
Viver sem as horas e os ponteiros do relógio!
Mover-se com as marés, viver no ritmo da natureza, pensar como o vento e circular como o sol.
Eis a natureza da vida, eis o viver do homem que move-se, aproveitando cada minuto do tempo que dispõe...
Mover-se com as marés, viver no ritmo da natureza, pensar como o vento e circular como o sol.
Eis a natureza da vida, eis o viver do homem que move-se, aproveitando cada minuto do tempo que dispõe...
domingo, 4 de maio de 2008
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