terça-feira, 2 de setembro de 2008

De Etienne Samain, divulgo

O Antropólogo (E TODO ser humano) procura observar, conhecer e entender o “real”, esse campo vastíssimo da “realidade” humana. Um campo ou, melhor dizendo, um organismo em constante ação e interação, em constante trabalho de parto, de luto e de renascimento. Um gigantesco território vivo, recortado, no tempo e no espaço, por histórias, memórias, imaginários; atravessado por símbolos, sonhos e novos recomeços. Eis o que procuramos definir minimamente, quando falamos de “culturas” humanas. Delas, todavia, podemos entrever apenas o que oferecem à nossa observação e à nossa experimentação , isto é, representações do real. De tal modo que toda tentativa de compreensão dos fatos de cultura nunca será outra coisa senão representação de representações, isto é, no melhor dos casos, o esforço de uma nova contextualização, de uma nova enunciação e de uma inevitável interpretação destes mesmos fatos. Esforços que procuramos edificar, recorrendo a palavras, sons, gestos, imagens, gritos e, até, a silêncios. Pois não é inútil lembrar que, sem meios de comunicação, sem suportes comunicacionais, não existiriam as sociedades humanas, menos ainda as culturas, que os homens constroem através e com o auxílio desses suportes.

Etienne Samain. 2004.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Falando sobre a Ilha e o Ilhéu

Esta comunidade intensamente ligada às águas, vive a dualidade terra-água em torno da qual se desenrola todos os aspectos sócio culturais e se cria uma identidade insular. O pescador artesanal que vive do mar, estabelece particularismos simbólicos, típicos de culturas marítimas, e totalmente diferentes dos chamados “continentais”.
A sobrevivência da captura da pesca, o coloca diante da lentidão do tempo cíclico da natureza, e esta relação aliada ao isolamento geográfico, o faz voltar o olhar para suas relações com os ventos, com as águas, com o tempo, com o oceano e adquire no imaginário inconsciente a necessidade da paz com sobrenatural, “(...) esse oceano era também a morada de monstros”(DIEGUES, 1998: 79) e vê na cruz o símbolo desta relação estabelecida com o divino, com o sagrado, de fato ela oportuniza uma ligação e simboliza a unificação dialética com o transcendental.
Assim, o significado da natureza como lugar dos deuses, e por serem os Deuses, como reza a crença e as lendas que “(...) são eles os verdadeiros proprietários das coisas e dos bens do mundo”(MAUSS, 2001: 61) direciona para o estabelecimento deste contrato, que permitiria a possibilidade de navegar no mar , de realizar a “travessia”. Este símbolo deve ser interpretado em toda a sua dimensão como um rito de passagem, pois de fato percebe-se pela história do próprio homem, seja pela mitologia grega ou através da “expedição dos argonautas”, ou mesmo a “Odisséia” e a lenda da “barca de Caronte”, que o homem trava uma relação mitológica profunda com as águas e com o mar.
A forte relação com o “mundo” das águas, aumenta o sentimento de pertencimento a um modo impar de vida. “(...) pescadores artesanais possuem o sentimento de pertencimento, implícito à realidade geográfica documentada no ímpar modo de vida”( LIMA, 2003128). São estas noções simbólicas que coexistem entre o tempo cíclico da vida terrena e o imaginário simbólico que remete a relação com o sobrenatural, explicitado na festa do santo padroeiro.
A afirmação de Gislaine Garcia de Faria de que “(...) o lugar não expressa vínculo de propriedade, mas sim uma rede de relações” (FARIA, 1998:79) remete ao sacro-religioso desta comunidade praieira, onde a dialética entre os mitos próprios da gente da lide com o mar, se reúnem na historicidade do lugar com a fé cristã herdada dos primeiros colonizadores portugueses que habitaram o lugar.
A comunidade da Marambaia possui características próprias. Embora, siga os mesmos ritos das outras duas comunidades existentes na ilha. A relação com o sagrado realizada tem uma forte conotação com as relações de trabalho e com a relação dos pescadores, e a sua mística com o mar e a natureza.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Ilhéus

A Marambaia, é um espaço ocupado por pescadores artesanais. Ali, todos possuem um vínculo que engloba desde as relações de parentesco, as relações de trabalho em um único modo que rege a vida da comunidade. O ser pescador!
Homens afetos a vida do mar, a separação que este lhes impõe, formam e possuem uma identidade particular, que caracteriza o homem insular, que vivendo em um território geograficamente demarcado e limitado, estabelece uma cultura definida com práticas sociais e simbólicas desenvolvidas sempre em unicidade com sua relação com o mar.
Esta sociedade insular, como diz Diegues “(...) Dadas as incertezas, os imponderáveis climáticos e de mercado” (DIEGUES,1998: 59), estrutura-se baseada em um conhecimento empírico do mundo em que vivem, pois impedidos de influenciarem no tempos cíclico que rege as suas atividades, devem a ele se moldar.
Seus atores sociais, formulam um viver, que se por um lado se estrutura na tradição e no saber milenar da arte de viver em uma ilha, depender do mar e de suas conseqüências espaciais e geográficas, por outro estabelece um viver mágico-religioso.
Os habitantes em sua maioria pescadores que vivem a insegurança que marca a oposição do habitante insular ao continental, guardam arraigados em seu imaginário, o mítico e o sagrado, que rege as suas relações com o sobrenatural. Pescadores que vivem da “(...) apropriação material de recursos renováveis e móveis, coloca problemas relevantes na análise da relação entre o homem e a natureza” (DIEGUES,1983: 07), caracterizando uma estreita relação com o mundo da natureza.
Herdeiros naturais, das utopias sociais que envolvem as ilhas e seus habitantes, Os ilhéus, são os protagonistas da sua própria historicidade e transformaram estes ambientes considerados no passado, como impróprios para a vida humana, em seus espaços sociais, culturais e históricos, indo além do apelo imaginário e mágico, que as ilhas e seus habitantes despertam na psicologia do homem moderno.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

As origens Portugal x Brasil

A Origem Portuguesa

A Ilha dos Marinheiros: duas maneiras de contar.
Breve história e origem do nome


A história da Ilha dos Marinheiros, segundo Azevedo (2003: 36), diz que inicialmente, antes da vinda dos primeiros colonizadores, a Ilha era ocupada por indígenas, identificados por Ruivo (1994) como integrantes da tribo dos Minuanos, povo nômade que nela pescavam, caçavam e cultivavam alimentos para sua sobrevivência, quando ali se instalavam no verão.

Em 1737, o português Silva Paes desembarcou em Rio Grande para formar um núcleo de fortificação e de auxílio à Colônia de Sacramento. As constantes batalhas com os espanhóis obrigaram a Coroa Portuguesa a construir um fortim e povoar as terras próximas a barra do canal, lugar considerado estratégico para a consolidação dos domínios de Portugal. Segundo Maciel em seu trabalho “A Educação Ambiental como instrumento na busca de soluções para os problemas socioambientais na Ilha dos Marinheiros” (1998). “As fortificações, casas, quartéis e demais obras eram feitas de madeira, pau-a-pique e barro” (QUEIROZ, 1987:67).

Estes soldados deveriam construir uma vila e uma fortificação, sobre as dunas de areia, que caracterizavam a região e que geravam imensas dificuldades. Pela localização e a estrutura costeira, os marinheiros foram encarregados então de conseguir água para o consumo e madeira para essas fortificações, e foram buscá-las na Ilha próxima, onde eram abundantes e de boa qualidade. Segundo Décio Neves “a península do Rio Grande era circundada por inúmeros capões de mato, compostos, sobretudo, por muito boas madeiras, inclusive a grande Ilha dos Marinheiros” (NEVES, 1981:65).

O povoamento da ilha se processou baseado no interesse das vantagens que a Ilha dos Marinheiros oferecia para a atividade agrícola e pesqueira, e que eram até então exploradas, somente pelos nativos indígenas. Transformada inicialmente em três sesmarias doadas a primeira ao Capitão Antonio Gonçalves dos Anjos, a segunda a Antonio de Araújo Vilella e a terceira a Antonio Gonçalves Pereira de Faria (NEVES, 1981:72). Foi reconhecida inicialmente como “A Ilha dos Três Antônios” (FREIRE, 2003:19), e que a historiadora Azevedo (2003) também retifica no livro que conta a história da Ilha dos Marinheiros, ao chamar o livro de “A Ilha dos Três Antônios” (2003).

Segundo os registros de João Borges Fortes, uma nova doação de terras da ilha foi feita em 1744, “(...) a Marçal da Silva Veiga, o que deve indicar que efetivamente não ocorreu a ocupação dessas terras por parte dos sesmeiros anteriores” (RUIVO, 1994:151).

Sobre a origem do nome da ilha, Ruivo, ao citar Freitas (1980), acrescenta um dado importante referente a importância da Ilha na época da fundação da povoação no continente, e a origem do nome que davam a ilha, referindo-se ao ano de 1780 e ao relatório feito a Coroa por Sebastião Bettamio, o qual escrevia a respeito da Vila de São Pedro, atual cidade do Rio Grande, dizendo:

Defronte da vila em distância por mar de uma légua, está uma ilha chamada dos Marinheiros, na qual tem sesmarias e datas de terras de alguns particulares, e como dali vem as lenhas para a vila pelas não haver – mais próximas, forma isentas da sesmaria e datas, assim as lenhas como os capins que servem para coberta de casas, a fim de que tanto a Fazenda Real como os moradores da vila se poder em livremente utilizar das ditas lenhas e capins. (FREITAS, 1980:159).

Portanto, as constantes idas à ilha, por parte dos marinheiros, levaram que a população residente em Rio Grande de São Pedro a batizassem de Ilha dos Marinheiros. “O nome da Ilha dos Marinheiros originou-se pelas constantes idas dos marinheiros da armada de Silva Paes ao local para buscar água potável e lenha” (PIMENTEL, 1944: xx).

Saint-Hilaire diz em 1820 em sua passagem por Rio Grande “(...) grande parte da Ilha dos Marinheiros era coberta de mato e que lá se buscava a lenha necessária, mas era reservado ao consumo do hospital, ao corpo da guarda e aos pobres, a quem se permitia ir ali corta-la” (SAINT-HILAIRE, 1987: 66).

É importante ressaltar, que a ilha além de fornecer madeira para a construção do fortim no continente, era também o centro fornecedor de água potável para a vila de Rio Grande de São Pedro, sendo no entanto considerada como um local inóspito para se viver, apesar da fertilidade do solo. Os registro de Saint-Hilaire dizem, quando de sua visita ao sul em 1820 “(...) Ali se encontra uma excelente água cuja qualidade poude julgar, pois era a que se bebia à meza do Major Matheus” (SAINT-HILAIRE, 1987:66).

Ao se consultar os arquivos históricos do Rio Grande do Sul (1977), se percebe que a ilha também teve outro papel, pois segundo Ruivo, o arquivo histórico do Rio Grande do Sul, em seus anais (1997: 159) diz que “A ilha foi utilizada como presídio [...], o negro do sargento mor causa da última desordem, seja remetido para a Ilha dos Marinheiros por tempo de três meses” (RUIVO, 1994: 151), quando se refere a Revolta dos Dragões, ocorrida em 1742.

Os anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, apresentam à página 177 e 178 o seguinte relato sobre a Ilha, compilados por Ruivo;

(...) soldado dragão da Companhia do Tenente-coronel, que ele suplicante se acha preso neste Corpo da Guarda à ordem de V.Sa., por se retirar do pesado serviço que estava ocupando na ilha do Marinheiro para esta povoação, por entender se ajustava com o amplo patrocínio de V. As., pois naquela ilha vivia bastante amofinado do trabalho dela, alem de ser mui despido e de todo carecido de quanto se faz preciso a um soldado para poder continuar em sua obrigação e não menos em tão agro serviço (ARQUIVO HISTÓRICO DO RS, 1977:177/178; RUIVO, 1994:151).

Esta imagem de lugar inóspito para se viver, e distante dos lugares civilizados e habitados, de difícil acesso e abandonado é o retrato do que era a Ilha dos Marinheiros no passado, o que, mesmo assim, não impediu que aos poucos, ali se fosse fixando uma população de colonizadores, devido a “(...) suas fertilíssimas terras, propícias à agricultura” (MACIEL, 1998:41), e que foram atraindo uma população de “(...) imigrantes portugueses e africanos que, familiarizados com as atividades agrícolas, foram lá se estabelecendo” (MACIEL, 1998:41).

De fato Dreys passou por ali em 1817 e relata “(...) algumas chácaras e produzem com abundância todas as hortaliças e legumes que lhes pedem” (DREYS, 1961:75).

A ilha foi ocupada por portugueses oriundos de Águeda, Aveiro e da Bairrada, (AZEVEDO, 2003:11) e que ali desenvolveram uma variada gama de plantações de hortaliças, legumes, frutas e videiras, constituindo uma ocupação estável de lavradores e o povoamento da ilha. “Dentro deste lagamar acha-se uma grande ilha, chamada dos Marinheiros, muito fértil. Nela se encontram todos os auxílios necessários para se poder fazer naquele continente uma bem regulada povoação” (GUILHERMINO, 1981:1970).

Este processo de colonização e ocupação geográfica fez com que a ilha dos Marinheiros viesse a se tornar no dizer de Pimentel (1944) “(...) o mais importante centro agrícola do município, com intensa cultura de legumes e frutas, fabrico de vinhos, de que se abastece a cidade e faz exportação em larga escala”. “(...) é a parte mais fértil do município, sendo conhecida como o pomar do Rio Grande” (PIMENTEL, 1944:54), o que evidencia o desenvolvimento da ilha para a época e apontava para uma existência de uma população de moradores e trabalhadores expressivas na agricultura, quase todos de origem portuguesa.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Considerações

Quando se visita a Ilha dos Marinheiros pela primeira vez, fica-se impressionado com a mágica do lugar. Talvez, o olhar ao se debruçar sobre o verde, os ouvidos ao escutarem o borbulhar do mar e o olfato ao perceber aquele cheirinho puro de ar e liberdade, tornem a ilha, parte de um sonho que se teve quando criança. Depois a fantástica acolhida que se recebe dos ilhéus, e o poder partilhar de sua história, seus sonhos, seus anseios e desejos, mostram que a vida é mais do que relógios a ditarem o andar das pernas e o fazer das coisas.

A vida que se percebe ali, é de uma existência fundamentada na exteriorização dos aprendizados feitos através da experiência e do próprio tempo, os quais, datam da época em que os mitos estavam a serem criados e as lendas eram apenas histórias dos acontecimentos ocorridos no dia anterior. Ali se descobre que cada homem antigo é uma enciclopédia sobre a própria cultura e a sua sociedade.

Percebe-se nesse trabalho de dissertação, que a religiosidade, e a fé no sobrenatural, é que ditam a ordem social naquela sociedade. Verifica-se que o indíviduo se adapta ao tempo dos ventos e das marés e faz com que a sociedade insular, embora, corrompida pelo cotidiano da modernidade, busque re-encontrar no tempo mítico, o sagrado e os valores da própria existência.

É, pois, destes encontros e re-encontros, que o homem da Ilha dos Marinheiros re-estabelece a harmonia com o sobrenatural, e prepara-se para se confrontar com o profano, até a próxima festa, fazendo com que o fato social, ainda que individual, seja a expressão cultural que exprime a geografia social do ilhéu.

Partilhar desta experiência do “marinhense” é uma dádiva, foi uma dádiva, e a obrigação de se retribuir, se faz neste trabalho. Com as imagens fotográficas foi possível, como diz Marc Augé, pela curiosidade do etnológo “devolver(em) àqueles os quais investiga o gosto pelas origens”(AUGÉ.2007.44).

Por outro lado, o papel da fotografia, imagem estática, e utilizada como escritura narrativa, leva o observador a chegar a uma compreensão maior e mais verdadeira dos valores sociais, culturais e rituais dos marinhenses, permitindo um maior conhecimento antropológico e etnográfico desta população, sem ter que ir até o lugar, mas pela observação das fotografias.

É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.

São visões estas que na observação presencial, muitas vezes são ineficazes, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.

A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com o uso da fotoetnografia, leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.

Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.

Existem ainda duas considerações a serem feitas e ambas se referem à utilização da fotografia na antropologia visual e ao seu uso neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade na Ilha dos Marinheiros.

A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas do seu viver e puderam aprender sobre si mesmos, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois as pessoas se vêem demais.

Percebe-se, finalmente, que este trabalho re-afirma o que já se sabia. Se aprende com o olhar, com as imagens e não se pode tentar, então, explicá-lo somente com palavras, sem a mágica do visual, sem a “áurea”que Walter Benjamim dizia que a fotografia tinha.

É na unidade que está o desfecho para a maioria, senão a totalidade das soluções das dificuldades para se apresentar o “outro”, para se compreender o outro. A imagem fotográfica é uma destas ferramentas, pois ainda apresenta a verosimilhança com a realidade, e é, em muitas vezes, esclarecedora para a compreensão dos fenômenos sociais que se observa.

A interdisciplinariedade dos conhecimentos não pode ser submetida a uma única forma de expressão e descrição. Que caiam barreiras, que se abram os olhos e que a superficie branca de uma folha, ainda imaculada pela ausência de “registros”, absorva tanto palavras como imagens, com a mesma importância científica, na área das ciências sociais.

domingo, 22 de junho de 2008

Falando de Fotoetnografia...

Por outro lado, o papel da fotografia, imagem estática, e utilizada como escritura narrativa, leva o observador a chegar a uma compreensão maior e mais verdadeira dos valores sociais, culturais e rituais desta população, permitindo um maior conhecimento antropológico e etnográfico desta população, sem ter que ir até o lugar, mas pela observação das fotografias.

É sua condição icônica, que na duplicação visual do mundo, vai descortinando, de forma indélevel, novas visões dos fenômenos sociais, no caso vivenciados pelos ilhéus e registrados pelas fotografias.

São visões estas que na observação presencial, muitas vezes é ineficaz, pois o olhar deixa de apreender pela existência do movimento, que é perturbador para o ser humano e para a visão natural, mas, que a mediatização da fotografia, enquanto processo fotoetnográfico, capta e narra como instrumento cientifico, pois permite a re-observação do mesmo fenômeno.

A cientificidade dos trabalhos etnográficos, antes dominada pela escrita e pelo pensamento narrativo tradicional, com a fotoetnografia leva a academia agora a curvar-se frente as novas tecnologias hipertextuais, que o trabalho de campo fotoetnográfico, vai “desreificando” do próprio exagero do grafocentrismo. Pode-se esplanar o conhecimento científico, também de outra forma, permitindo que a esplanação dos objetos de estudo, contemplem o dialógo entre a grafia tradicional e a imagem.

Estas outras maneiras de apresentar um “ethos” e a imersão cultural e humana existente no fenômeno no campo antropológico, são contemplados não só com a fotoetnografia, mas também com fotoetnotextografia.

Existem ainda duas considerações, a serem feitas e ambas se referem a utilização da fotografia na antropologia visual, e o seu uso, neste estudo “Fotoetnotextográfico”, feito sobre o Ilhéu, seus mitos e a sua religiosidade, na Ilha dos Marinheiros.

A fotografia, mais do que qualquer coisa, descortinou diante do olhar dos próprios ilhéus, a sua vida. Eles se viram protagonistas e puderam aprender sobre si mesmo, em um mundo que cada vez se comunica mais por imagens, e tem tanta dificuldade para se enxergar, pois se vê demais.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

terça-feira, 20 de maio de 2008

Fotoetnografando....

O registro fotográfico é a reunião da subjetividade do fotógrafo, acrescida de fatores intelectuais, emotivos, fundamentados em um tratamento expressivo que ele da sobre o significado de ver e registrar a realidade que representa na imagem fotográfica. Este procedimento caracteriza o principal elemento constitutivo da narração visual, a fotografia que intensifica o ato de olhar, gravando a observação do fenômeno, que posteriormente poderá acrescentar a esta imagem muda complementos verbais, se achar que é necessário explicar e interpretar o que a imagem contém.


Porém o elemento constitutivo do trabalho investigativo cientifico, na área das ciências sociais não é fruto apenas uma mera interpretação do visível, assim como a imagem fotográfica não é uma ilustração alegórica da investigação. O trabalho cientifico etnográfico no dizer de Marcel Mauss(2002), adverte para que “(...)tiene como fin la observación de las sociedades; como objetivo, el conocimiento de los hechos sociales. Registra esos hechos, por necesidad establece sus estadísticas y publica documentos que brindan el máximo de certeza”. (MAUSS.2002.21).

domingo, 11 de maio de 2008

O tempo cíclico

Viver sem as horas e os ponteiros do relógio!
Mover-se com as marés, viver no ritmo da natureza, pensar como o vento e circular como o sol.
Eis a natureza da vida, eis o viver do homem que move-se, aproveitando cada minuto do tempo que dispõe...

domingo, 4 de maio de 2008

Dois irmãos, Dois amores, Duas pátrias

Nossa Senhora da Saúde

A capela original construída por portugueses, teve a escolha do nome da santa realizada por simpatia para com a mesma. O fato perdeu-se na memória coletiva, com o passar do tempo, porém nas entrevistas apurou-se que quase todos os fundadores e construtores da comunidade, eram portugueses e de regiões próximas a Espinhel, Ágüeda.

Aponta a tradição portuguesa, que a invocação à santa e a crença em sua intervenção miraculosa que levou ao fim de vários surtos de peste ocorridos em Portugal, teriam feito que fossem erguidas, em sua honra, nas povoações libertas do flagelo, igrejas em sua devoção e agradecimento, popularizando a devoção a Nossa Senhora da Saúde.

Acredita-se, que pela tradição religiosa herdada, os laços de parentesco e afetividade, que os portugueses residentes na Ilha dos Marinheiros, mantém com os parentes residentes em Portugal, mantenham vivo em seu subconsciente este fato, e que na hora de escolherem uma santo padroeiro para a capela que construíram, recordaram-se da devoção a esta denominação dada a Nossa Senhora , a de intercessora para a Saúde.

A antiga capela, que como diz seu Antônio, “ficava lá pro meio dos campos”, com a destruição pelo tempo, foi em 1976 “(...) construída uma nova capela, mudando as características da anterior, que já se encontrava totalmente destruída”.(AZEVEDO.2003. 87). A nova capela foi construída mais próxima da zona produtiva.

A atual capela de Nossa Senhora da Saúde fica ao lado do campo de futebol do Esporte Clube Libertador. Está proximidade ao campo de futebol, a proximidade as algumas residências, a distância que fica da estrada, lhe conferem um ar de coisa privada, de intimidade, pois o seu acesso é feito através de uma estrada, que passa por dentro de uma propriedade come uma porteira, para dar acesso ao campo, ao salão e a própria Igreja.

A data das festas tem sofrido algumas alterações devido ao clima que existe no mês de agosto, o forte do inverno na região, e as adversidades climáticas, características desta época, que castigam a ilha dos Marinheiros, tanto como os ventos oriundos da lagoa dos Patos como os que provêm do oceano Atlântico. As chuvas, o frio, e a situação econômica dos moradores do Fundos da Ilha, também tem contribuído para isto.